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CASA DA GLÓRIA - 18A

 

O projeto de restauração e reforma  da Casa da Glória, uma edificação datada do início do século XX, edificação do Corredor Cultural, adaptou-a para se tornar a sede da Mayerhofer e Toledo, função esta que cumpriu por 20 anos.

Tal projeto recebeu do IAB-RJ, durante sua XXXV Premiação Anual, o prêmio de melhor projeto de Espaço de Produção e do Trabalho, o que coroou a filosofia de trabalho em equipe da M&T.

Em 2014 o projeto de restauração da fachada da sede foi um dos contemplados do Programa de Apoio à conservação de Imóveis Privados (Pró-Apac) do Instituto Rio Patrimônio da Humanidade (IRPH) da Prefeitura do Rio de Janeiro, possibilitando  o projeto e a obra de restauro da fachada do imóvel.

Endereço: Rua da Glória, 18A - Glória - Rio de Janeiro - RJ

Fotos: Tiago Tardin

CASA DA GLÓRIA

um ambiente de trabalho

 

No início do século, a Casa já se erguia diante da ladeira junto à velha muralha da Glória, onde as ondas iam quebrar até que sucessivos aterros as afastassem para longe.

 

Vazia há muitos anos, abrigara por mais de meio século proprietários, inquilinos e, por fim, invasores. Nunca a trataram muito bem.

 

A Casa temia pelas rachaduras nas paredes, pelo telhado que desabava e não a protegia da chuva que molhava os assoalhos, feitos de velhas tábuas de pinho de Riga fixadas em grandes vigas de madeira infestadas de cupins.

 

O abandono causara muitos estragos, as tubulações de água e esgoto carcomidas pela ferrugem ou entupidas pela sujeira, que se acumulara ao longo dos anos, não tinham mais serventia. A fiação elétrica desaparecera destruída pelas infiltrações e pelos cupins que só não ameaçavam as grossas paredes.

 

Preocupada, a Casa percebeu os primeiros furtos, as calhas de cobre arrancadas com brutalidade e, logo depois, o portão de ferro tão bonito, cujo desenho caprichoso não iria mais enfeitar sua fachada esguia, porta e janelas que descortinavam, a cavaleiro, os belos jardins da Praça Paris.

 

1988 foi um ano de grandes temporais, a Casa não foi poupada, durante meio século enfrentara com paciência os maus tratos de seus habitantes, suportara com altivez os longos anos de solidão e abandono, mas não resistiu às chuvas torrenciais que destruíram parte de seu corpo, revelando suas entranhas à  vizinhança que fugia espavorida.

 

 

Foi assim que a  Casa morreu.

 

 

 

Quando a conheci, morta e triste, sua longilínea fachada, de quatro metros e meio de largura por mais de dezesseis de altura, permanecia de pé. Dos seus três pavimentos pouco sobrara para além do prisma que a dividia em duas partes.

 

Foi esta resistência que, a princípio, me atraiu, depois deixei-me levar pela elegância de sua cantaria e pelo clima “noire” deste pedaço da cidade tão mal falado, mais Lapa do que Glória.

 

Não foi fácil comprá-la, péssimo negociante não soube tirar vantagem de seu estado ruinoso, admirador confesso preferi calar-me frente ao espantado vendedor.

Mais difícil ainda foi transformá-la em nosso escritório.

 

Foram quase sete anos de obra, muitas vezes interrompida por falta de dinheiro, pela inflação galopante, ou pelo nosso desânimo diante de tamanha empreitada.

 

Nunca nos faltaram incentivos, vinham de colegas e de amigos, e de colegas que se tornaram amigos, como Augusto Ivan e  André Zambelli, cuja dedicação e capacidade de resistência tanto contribuíram para o sucesso do Corredor Cultural, como  Olga Bronstein e Roberto Anderson, da 2ª R.A., graças a quem conseguimos manter em nosso pequeno trecho de calçada as velhas pedras de sua pavimentação original.

 

No projeto, colaboraram muitos arquitetos. Alguns perdi de vista como o Alexandre Ferreira, outros conservo no meu coração como Luiz Claudio, Vera  e o meu querido Mário Ferrer.

 

A obra, iniciada pela Construtora Marcelo Carvalho, foi concluída pela Jercon, do engenheiro Eduardo Romariz, com a ajuda de muitos colaboradores. Mauro Poppe reproduziu as esquadrias originais, o cálculo estrutural foi feito por Arnaldo di Biasi Moura e Celso Giacóia e a grande escada de ferro, peça fundamental da solução espacial adotada, foi calculada pelo Candido Magalhães.

 

O projeto tinha por objetivos adequar a Casa às necessidades do nosso “escritório de arquitetura”,  otimizando a área disponível sem alterar o perímetro e o gabarito da edificação, criando espaços dinâmicos de grande transparência, formalmente e funcionalmente adequados a nossa atividade.

 

A solução adotada tirou partido do grande pé direito criando dois mezaninos,  recuados em relação a fachada principal, como determina a legislação do Corredor Cultural.

 

Todos os pisos foram interligados pela grande escada construída ao lado do prisma central de ventilação e iluminação, coberto por uma clarabóia erguida há dezesseis metros do chão.

 

Dos vãos voltados para o segundo prisma, nos fundos da casa, foram eliminadas as esquadrias, o que reduziu o custo da obra e facilitou a circulação do ar por toda a edificação.

 

O partido arquitetônico reuniu as vantagens de um ambiente de trabalho do tipo “landscape”, ao isolamento acústico e privacidade proporcionados pelos pavimentos alternados, separados por meios lances de escada.

 

Em sua maior parte os pisos foram mantidos em osso, com juntas de “granzeps”, formando linhas oblíquas em relação às paredes.

 

O piso da entrada foi parcialmente revestido com placas de pedra Miracema e decorado com um grande círculo vermelho, em mosaico vitrificado Bisazza.

Os pavimentos voltados para a Rua da Glória, tiveram seus pisos recobertos por tábuas corridas.

Os problemas de iluminação e conforto térmico foram amplamente considerados pelo projeto.

 

A luz que penetra pelas clarabóias foi controlada por meio de “brises” reguláveis que conferem aos ambientes de trabalho uma excelente iluminação natural

 

A necessidade de obter-se níveis de iluminamento adequados aos trabalhos em computador e aos desenvolvidos nas pranchetas e mesas, levou-nos a adotar uma solução flexível quanto a intensidade do iluminamento, que permite acender conjuntos de 4, 6 ou 10 lâmpadas HO por pavimento.

 

As luminárias, fabricadas na própria obra, tiveram seus reatores reunidos em quadros junto às paredes de forma a facilitar a manutenção.

 

O alto custo de implantação e manutenção dos sistemas de condicionamento de ar levou-nos a descartar sua utilização, e adotar uma solução natural, baseada no conforto proporcionado pela permanente circulação e renovação do ar pelos prismas, que atuam como verdadeiras chaminés. Neles o ar aquecido circula em correntes ascendentes e escapa através de grandes panos de venezianas, construídas com elementos pré-moldados de concreto, junto às clarabóias.

 

Para garantir um maior conforto térmico foram instalados quatro ventiladores de teto por pavimento, só utilizados no auge do verão.

 

Os móveis existentes já nos acompanham há anos, com exceção dos que foram projetados especificamente para a Casa, como as bancadas de computadores e os armários.

 

As paredes existentes, de pedra e tijolos maciços, foram mantidas quando o estado de conservação permitiu. Foram também conservadas algumas fileiras de tijolos marcando a posição das paredes demolidas, assim como pedaços do vigamento em pinho de Riga, que assinalam os níveis dos antigos pisos.

 

A Casa acordou com o barulho estridente da serra elétrica e das conversas dos operários. Somente abriu os olhos depois de tudo concluído, ganhara um novo corpo de aço e concreto, mas as velhas paredes, ainda existiam, assim como pedaços de sua antiga estrutura, cuidadosamente mantidos para que ela pudesse  se reconhecer

 

Foi assim que a casa de novo viveu.

 

Com tranqüilidade aguarda o ano 2000.